A aluna Leonor Beatriz Barros Monteiro, do 9.º A do Agrupamento de Escolas de Eiriz, venceu o concurso nacional de escrita criativa “Readon Portugal”, promovido pela Rede de Bibliotecas Escolares.
“Este reconhecimento evidencia o talento, a criatividade e o empenho da aluna, refletindo igualmente o espírito de dedicação, participação e cidadania que se procura promover na nossa comunidade educativa”, indica Florbela Rocha, professora bibliotecária, responsável pela submissão do texto a concurso, endereçando “os parabéns à Leonor pelo mérito alcançado e por dignificar o nome da escola, constituindo um exemplo inspirador para todos”.
A escola felicitou, ainda, todos os alunos que participaram no referido concurso, incentivando-os a continuar a envolver-se em iniciativas desta natureza, fundamentais para o desenvolvimento de competências literárias e criativas.
“Expressamos o nosso agradecimento a José Miguel Araújo, elemento da equipa da Biblioteca Escolar, pela colaboração e pelo empenho demonstrados no acompanhamento desta iniciativa.
“A Biblioteca Escolar continuará a promover o gosto pela leitura e pela escrita, convicta de que experiências como esta contribuem significativamente para a formação integral dos nossos alunos”, conclui Florbela Rocha.
Texto da Leonor:
A rapariga do corredor
Na minha escola havia uma miúda muçulmana que poucos conheciam verdadeiramente. Sabíamos o seu nome. Tinha uma postura recatada e uma forma silenciosa e reservada de caminhar pelos corredores quase invisível aos olhos de quem preferia não a ver, como quem tenta ocupar o mínimo espaço possível num mundo que insiste em olhar demais. Para muitos, era apenas “a rapariga muçulmana”. Para outros, “a miúda do hijab”. Para mim, era um rosto sereno no meio da confusão escolar.
Vivíamos num mundo rápido, em que o nosso quotidiano era repleto de situações onde tudo precisava de resposta imediata. A escola podia estar cheia de vozes, risadas, telemóveis na mão e pressa por todo o lado, mas ela parecia andar noutro ritmo, num compasso diferente, quase resistente ao aceleramento que dominava o nosso dia a dia.
Ela não era da minha turma, cruzávamo-nos nos corredores da escola, entre toques de campainha, mochilas às costas e conversas apressadas. Nunca falámos. Talvez porque ela falasse inglês. Talvez porque o silêncio também seja uma forma de comunicar.
Vivíamos rodeados de tecnologia e de respostas rápidas. Mesmo assim, ela preferia o caminho mais difícil. Os testes eram em inglês, a língua em que se sentia mais segura, mas insistia em fazê-los em português. Talvez porque queria estar ao mesmo nível que nós. Não por obrigação, mas por dignidade, como se nos quisesse dizer, em silêncio: “eu pertenço aqui”.
Um dia, ouvi dizer que lhe tinham tirado o hijab. Chamaram a atenção a quem o fez e alertaram para que isso não se repetisse. O episódio correu a escola em murmúrios rápidos, desses que duram pouco tempo e depois se esquecem. Para mim, ficou. Porque ninguém deveria ter de defender aquilo que faz parte de si, da sua essência, dos seus valores…
Nunca lhe dirigi a palavra. Nunca lhe disse que a achava linda, não só pelo rosto, mas pela coragem silenciosa que transportava. Talvez por isso, tenha conseguido ensinar-me tanto sem nunca me ter dado uma aula, propriamente dita.
Certo dia, deixou de aparecer. Não sei para onde foi. Sei apenas que desapareceu dos corredores da mesma forma como de quem sai de cena sem receber aplausos.
Hoje, quando ouço falar em interculturalidade como um conceito distante, lembro-me dela. Para mim, ganhou o rosto de uma rapariga que me fez questionar o verdadeiro sentido de acolhimento, de persistência e de dignidade humana.
Num mundo onde a inteligência artificial encurta distâncias, ainda falhamos no essencial: olhar para o outro como igual, mesmo quando é diferente. As histórias que precisamos de continuar a escrever são estas, as das pessoas reservadas, das que resistem com gestos pequenos e firmes.
Talvez ela nunca saiba o impacto que teve. Mas ajudou-me a compreender o mundo. E isso, por si só, já é uma história que merece ser contada.



