O país, especialmente o Portugal rural, foi, durante décadas, marcado pela pobreza extrema e por condições de vida desumanas, miseráveis, indignas e medievais. Durante demasiado tempo, as populações do interior viveram esquecidas, sem acesso aos direitos básicos, ao trabalho digno ou mesmo às simples oportunidades de desenvolvimento pessoal e social.
O país vivia numa lógica quase feudal, de dependência dos grandes senhores e de submissão social. Quem hoje idealiza o tempo de Salazar devia recordar que os seus filhos mal concluíam a 4.ª classe e seriam depois obrigados a trabalhar no campo, sem futuro, sem garantias e sem liberdade! Ou ainda a emigrar a “Salto” caso não fossem enviados para a Guerra do Ultramar.
De facto, Salazar via a industrialização do país como uma ameaça à “ordem moral e ao controlo político do regime. O seu modelo de governação assentava num país rural, obediente e estático, em que o campo era idealizado como espaço de pureza e de trabalho, enquanto a cidade e a indústria eram associadas ao conflito social e à “decadência” moral. Tal visão travou o desenvolvimento económico e tecnológico durante décadas. Enquanto o resto da Europa se industrializava e urbanizava, Portugal manteve-se num modelo agrário, de baixa produtividade, com salários reduzidos e de forte emigração. O resultado foi um país com uma economia atrasada, altamente dependente e com profundas desigualdades entre o litoral urbano e o interior rural.
O Estado Novo deixou marcas visíveis no país, as obras públicas, alguma estabilidade financeira e um forte sentido de ordem e de identidade nacional. Contudo, esses aspetos positivos não podem ocultar o essencial, o preço foi pago com a liberdade, com a ausência de pensamento crítico e com um verdadeiro desenvolvimento do país como um todo.
Por fim, a democracia é, por natureza, imperfeita, e os partidos que nela existem também o são, mas que privilégio é viver num Estado democrático, onde podemos pensar, falar e escolher livremente quem nos governa. A liberdade de discordar e de participar é um bem maior do que a democracia nos oferece e nunca deve ser dada por garantida.
Diogo Miguel Pinto



