O futuro de Baião não pode continuar a ser pensado a partir de intervenções isoladas, constantes ou de simples políticas conjunturais. É muito importante que se perceba que o território funciona em rede, como um sistema vivo, no qual os diferentes lugares e atores se interligam de forma dinâmica e complexa. A própria literatura científica tem demonstrado de forma muito consistente que o desenvolvimento de um território não resulta da simples soma de projetos e políticas avulsas, mas da imperativa articulação entre os lugares, as atividades e as pessoas, organizadas em torno de centralidades com a capacidade de estruturar o território.
Com este enquadramento, torna-se imperativo estruturar o concelho de Baião a partir de uma estratégia de médio e longo prazo, assente na criação da centralidade funcional, mas enquadrada num evidente modelo de território em rede. A organização em torno das três vilas deve reconhecer a sua complementaridade, mas com o reforço da vila de Campelo (sede de concelho) como o nó principal do sistema, capaz de concentrar as funções de maior hierarquia, os serviços especializados e a capacidade de polarização necessária ao equilíbrio territorial. Como demonstrou Christaller, a existência de centros hierarquizados não contraria a lógica em rede, pelo contrário, é uma condição sine qua non para o seu bom funcionamento.
A ausência de uma centralidade claramente definida em Baião fragiliza o sistema territorial como um todo, sobretudo num contexto de forte pressão externa, dada a proximidade de cidades como Amarante e o Marco de Canaveses. Enquanto os centros urbanos mais robustos tendem a atrair mais fluxos económicos, mais população e, obviamente, maior funcionalidade, no caso de Baião, não existe, atualmente, a capacidade de organizar internamente o seu próprio sistema territorial. Brian Berry mostrou que os territórios funcionam como sistemas interligados, e a literatura sobre policentrismo no planeamento europeu, onde se destaca Simin Davoudi, tem defendido a importância de centros bem definidos e de ligações claras entre si, transformando o território num motor de coesão e competitividade.
É certo que, nos últimos anos, o turismo integrou este sistema como um dos principais eixos de desenvolvimento de Baião, mas não pode ser entendido como um fim em si. A literatura sobre desenvolvimento tem sido inequívoca ao alertar para os riscos da monoespecialização económica, particularmente em territórios mais frágeis, como os de baixa densidade. Autores como Richard Butler, bem como a própria OCDE, têm sublinhado que o turismo deve articular-se com outras atividades produtivas e serviços, contribuindo, assim, para reforçar o sistema territorial, e não só para o tornar dependente.
No plano do ordenamento, importa reconhecer que os instrumentos existentes, nomeadamente o Plano Diretor Municipal, operam frequentemente numa lógica normativa que nem sempre dialoga com a realidade sistémica do território. Apesar da sua revisão recente, é previsível que muitas Unidades de Planeamento e Gestão (UOPG) não venham a ser totalmente executadas, seja por constrangimentos financeiros, seja pela fragmentação fundiária ou até pela ausência de agentes promotores. Este desfasamento entre o planeamento formal e o funcionamento real dos sistemas sociais tem sido amplamente reconhecido por autores como João Ferrão e Patsy Healey, o que sublinha a necessidade de abordagens mais flexíveis e adaptativas.
A proximidade ao Porto reforça a importância de pensar Baião como parte de um sistema territorial alargado, mas também com dinâmicas internas assimétricas. O sudoeste do concelho de Baião ainda permanece pouco integrado nos principais fluxos regionais, o que expõe fragilidades persistentes e estruturais. Denote-se que uma abordagem place-based, como a defendida por Fabrizio Barca e outros autores, permite compreender estas desigualdades internas e atuar sobre elas, reforçando as ligações funcionais e evitando a concentração excessiva de oportunidades em determinados espaços.
Importa, ainda, reconhecer que não existe uma fórmula milagrosa e universal para os territórios de baixa densidade. Por toda a Europa, os problemas repetem-se, o envelhecimento demográfico, a perda de serviços e as dificuldades na atração de investimento. O que distingue os territórios que conseguem inverter estas trajetórias é a capacidade de construir uma governação colaborativa, integrando o poder local, a academia, o tecido económico e a população numa lógica de coprodução e aprendizagem coletiva. Na ausência desta agregação de vontades, o território perde coerência, enfraquece e o desenvolvimento fica, assim, reduzido a meras intenções estratégicas e a discursos bem formulados, mas sem a necessária tradução efetiva no território.
Baião ainda dispõe de alguma margem para se afirmar como um sistema territorial coeso, funcional e competitivo. Mas para tal desiderato, é indispensável assumir a centralidade não como um fim em si mesma, mas como um instrumento de organização do território, capaz de reforçar a coesão, a eficiência e a sustentabilidade do concelho. O tempo das hesitações é curto, e os sistemas territoriais que não se estruturam acabam, inevitavelmente, por serem absorvidos por outros mais fortes.
Diogo Miguel Pinto
Geógrafo, investigador na Universidade do Porto/CEGOT



