José Costa começou em 2014 a fazer o caminho a pé até ao Santuário de Fátima, nesse ano devido a uma promessa, e nos seguintes porque “gostou da experiência, que é difícil de descrever, mas que se vive de forma intensa”.
Em conversa com o nossoterritório.pt, o baionense não escondeu a emoção de cada partida, cada caminho e cada chegada a Fátima, onde a fé supera as dores do corpo, de mais de 286 quilómetros de caminhada.
A primeira ida a Fátima a pé por José Costa foi feita com um grupo de oito pessoas do Marco de Canaveses. “Tinha feito uma promessa e não queria ir sozinho”, contou, revelando que se manteve com o grupo durante quatro anos seguidos, mas os grupos começaram a ficar muito grandes, com várias pessoas de Baião a participar, o que o levou a começar a organizar as idas a Fátima.
“Era como uma família, dormiam homens e mulheres no mesmo espaço e havia sempre, no local onde eramos acolhidos, quem nos desse mantas e cobertores. Na Pinheira da Bemposta, havia um sítio que a senhora da casa, quando estava a chover, fazia uma fogueira e uma sopa com massa, que nunca comi na minha vida”, recorda, contando que “a fogueira servia para secar as sapatilhas, porque reza a lenda que não é bom trocar de sapatilhas durante o percurso”.
José Costa começa em 2018 a levar um grupo de pessoas do concelho de Baião e, até aos dias de hoje, apenas falhou os anos de 2020 e 2021 devido à pandemia.
Nestes anos de caminhada ao encontro de Fátima, são muitas as histórias que José Costa guarda. Histórias de sofrimento, de alegria e, sobretudo, de superação.
Na altura, como era comandante dos Bombeiros Voluntários de Baião, conhecia muitas corporações e entrou em contacto com elas para conseguir dormida para o grupo. Hoje em dia, recorre mais a hotéis para o descanso, que se faz depois da partida diária às 03:00 da manhã e de vários quilómetros de caminhada.
“Caminhámos sempre de madrugada e parámos depois da hora do almoço. Com o calor é mais difícil e assim permite ao grupo chegar, tomar um banho, comer qualquer coisa e descansar até à nova partida”, explicou.
A primeira etapa da caminhada é feita um mês antes de arrancarem seguido para Fátima, dado que é a mais extensa, com 52 quilómetros. “Um mês dá ao grupo tempo para recuperar dessa etapa para depois avançar seguido, com etapas diárias de cerca de 40 quilómetros”, salientou.
Ir a Fátima a pé requer muita preparação e José Costa aconselha sempre a fazerem caminhadas antes do arranque e a tratar dos pés, que são os que mais problemas vão dando durante o percurso.
“No primeiro ano que fui fiquei com os pés cheios de bolhas. Custou muito, cheguei a Baião com os pés todos cosidos, porque há mulheres a coser os pés com agulhas. Por isso, aconselho a tratarem bem dos pés para evitarem esse desconforto”, disse.
O cansaço é, também, um dos principais problemas de quem segue para Fátima a pé e José Costa lembra anos em que o percurso demora mais, porque o grupo tem de esperar por alguém que não aguenta tanto.
“Mas tudo se consegue e as pessoas superam-se. É engraçado, porque aguentam melhor as pessoas que vão sem promessa do que as que vão com promessa. Vão mais livres e isso, psicologicamente, ajuda mais”, revelou.
José Costa lamenta que ainda não tenha sido feito um caminho mais seguro para os peregrinos, porque enquanto “vão pelo interior, até Oliveira de Azeméis, o trânsito é menor, mas entrando na Estrada Nacional 1 é muito perigoso, embora a GNR ande sempre a acompanhar”.
Este ano, o grupo conta com 28 pessoas, todas do concelho de Baião e algumas repetentes na caminhada. Arrancam na madrugada de quarta-feira e seguem unidos, com a fé a movimentar-lhes o corpo. Pelo caminho, riem, choram e cantam. Nunca esquecem de onde vêm e para onde vão, levando Baião no coração e a Nossa Senhora de Fátima como companhia.
“Rezamos sempre à saída para a etapa, e vamos pelo caminho a rezar o terço, e à noite, antes de descansar”, contou José Costa, que orienta o grupo com previsão de chegada ao Santuário de Fátima a 12 de maio.
“É um sacrifício, mas se não fosse um sacrifício não valia a pena. Estou convencido que milhares de pessoas que vão a pé a Fátima o fazem sem promessa”, concluiu.



